“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Caríssimo Borges,

Tudo bem? Estou a escrever para saber se já tens bilhetes? Para o Nos Alive, o Super Bock Super Rock, o Marés Vivas? Tens? Arranjas? Não preciso, deixo estar. Fico na Volvo V90. Sim, é estranho admirar num carro um sistema de som. Mas o problema é que isto não é um sistema de som... é O sistema de som.

Já experimentei vários modelos, mas nunca um com uma experiência sensorial tão envolvente. Chega ao ponto de dar claramente a ideia do artista estar sentado ao teu lado a cantar. Aqui, até a Maria Leal é boa! Ok, peço desculpa. Não é! Mas até gostava de ouvir só pela experiência.

Sim, a Volvo é a marca mais segura do mercado. Sim, os acabamentos e o espaço são de topo. Sim, está bem, a motorização tem 190 cv e parece suave na estrada como uma faca na manteiga (sem derrapar). Mas e o som? A parceria dos suecos com a Bowers & Wilkins foi das melhores coisinhas que fizeram. Ao ponto de que se batesse com a carrinha eu nem ficava muito importunado desde que o sistema de som continuasse a funcionar. Rebentaram-me a traseira?! Boa, fico a ouvir música até chegar o reboque.

Já não tenho paciência para ir a festivais de verão. Os festivais de verão são o único sítio onde mães e filhas, ambas, acham que têm 18 anos. Umas ainda nem lá chegaram, outras já os viveram há muito. E depois andam todas aquelas miúdas de calções curtinhos e apertadinhos. O problema é que nem todas podem usar aquilo! E há miúdas que levam os calções tão apertados que só faz lembrar aqueles rolos de carne com o fio à volta sabes?

E depois a malta vai aos festivais de verão e no dia a seguir:

- “Fogo, altamente fui ver os Smerfles Smesses e não consegui pá.”

-“Então? Bebeste muito? Tipo loucura mesmo?”

- “Não! Estava na fila para receber um chapéu.”

Que raio de fenómeno é este que as pessoas pagam 70 euros para ir a um festival e depois passam três horas para receber um panamá. Não passam cinco minutos na Segurança Social. Para receber um chapéu... três horas! Se houvesse uma barraquinha para levar com um pau nas costas, aposto que havia fila! Não sei se é um fenómeno muito português, mas dá-me a ideia de que o que se passa na cabeça das pessoas é: “Paguei 70 euros só para ver os Foo Fighters?! Não! Vou levar o máximo de bugiganga possível até cobrir o custo!

Sei que um dia chegará a vez das minhas filhas irem até ao festival com a mãe. Eu também irei, mas não tenhas dúvidas. Fico na carrinha.

António RAMINHOS

 

Companheiro, leio a tua crónica ao mesmo tempo que uma janela do PC está aberta num artigo sobre os nomes mais atribuídos aos filhos pelos pais portugueses em 2016. “Maria” lidera destacado a lista feminina. E julgo que és responsável em 66% por isso. De modo que a V90 será de facto o veículo ideal para transportar esse mulherio todo. Continua assim e imagino-te como um Capitão Von Trapp do futuro, líder dum coro “a capella” constituído integralmente por filhas – quiçá capaz de abrir o palco principal do Sudoeste quando a malta perceber enfim que pagar rios de dinheiro a DJ’s para “tocar” (entenda-se enfiar uma “pen” enquanto gritam e fazem gestos frenéticos com as mãos) é só parvo.

No meu caso, estou fora. 3 vezes fora. Ou melhor 124 vezes fora. É que o Autohoje decidiu gentilmente antecipar a crise de meia-idade deste quase quarentão ainda sem descendentes com o empréstimo do Fiat 124 Spider, desportivo de dois lugares, ideal para fulanos ansiosos de sacar, lá está, essas referidas moçoilas de calção curtinho. Ou suas mães. Lá diz o povo: “maravilha, maravilha, é primeiro a mãe e depois…”. Bom, adiante.

Numa crónica especial anterior, já desenvolvi detalhes apurados sobre este meio-irmão do meu Mazda MX-5 – coisa, portanto, que o leitor atento já sabe. Esse mesmo leitor também está consciente de prévios textos meus onde, por esta ordem: solucionei a crise no Médio Oriente, previ os quatro anos de governação Trump e abri de espanto a boca do mundo futebolístico ao comparar as opções tácticas de Nuno Espírito Santo com a capacidade criativa demonstrada por turmas da 1ª classe em livros para colorir.

Portanto, utilizarei os últimos 1000 caracteres desta crónica para elencar apenas 3 experiências vividas a bordo do Spider:

- fulano picou-se comigo num semáforo. Deixei-o ir. Sou uma pessoa com quase 40 anos. Há toda uma maturidade entretanto adquirida. Duas curvas depois fui dar com ele encalhado contra um separador. Ri-me.

- dois adolescentes sentaram-se na grelha para tirar uma selfie. Saio do café e deparo-me com o seguinte espectáculo: dois “teens” exclamando “Top”, “Lol” e “Like a boss” enquanto, alarvemente sentados sobre a traseira do Spider, disparavam selfies para o “insta” e o “feice”. Como eles não falaram, permaneci calado. E arranquei. Penso que nas últimas fotografias deles já não se vê o carro, mas há uns planos incríveis do asfalto e uma pose fantástica dum deles a partir a cremalheira contra o passeio.

- uma mulher fez-se descaradamente a mim. Palavra puxa palavra, hipnotizado com o olhar e os meneios de cabelo, dei por mim a ceder-lhe as chaves do automóvel. Praticamente não o conduzi. Felizmente vivemos juntos há um ano e meio. Seria complicado de explicar à Fiat que tinha perdido o carro.

Luís Filipe BORGES

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