Um X1 com tração dianteira e um motor Diesel de três cilindros pode ser um indicador das mudanças na BMW, mas será um sinal de perigo para os SUV generalistas? O Honda CR-V e o Mazda CX-5 provam que a imagem não é tudo...

Depois dos Série 2 Active Tourer e Gran Tourer já não é uma novidade absoluta ver um BMW de tração dianteira e com um motor de três cilindros montado transversalmente. Goste-se ou não, para os menos “puristas” as vantagens práticas associadas a esta arquitetura podem suplantar o que se perde na dinâmica, além de que a sinergia nas plataformas e o downgrade nos motores permitem oferecer um X1 a um preço e com uma competitividade comercial que o coloca no mesmo patamar dos SUV ditos generalistas. Isto, claro, desde que não se importe de trocar a imagem de marca da BMW por um motor mais pequeno e uma menor dotação de equipamento de série. É que por um valor similar pode adquirir um Mazda CX-5 2.2D muitíssimo bem equipado e muito mais potente ou um Honda CR-V 1.6 i-DTEC, também ele mais potente e com tração integral, sendo dos poucos SUV (o Outlander é outro exemplo) que o pode fazer mantendo a Classe 1 nas portagens.

Como referido, uma das vantagens de ter mudado a base do X1 (a mesma do Mini Clubman, por exemplo) é que o mais pequeno dos SUV da BMW ganhou imenso na relação entre as dimensões exteriores e o aproveitamento do espaço interior. Mesmo sendo consideravelmente mais pequeno do que o CX-5, por exemplo, o X1 consegue a proeza de oferecer uma bagageira maior (505 litros contra os 463 do Mazda) e mais 60 mm em espaço para as pernas no banco traseiro. Mesmo assim, o CR-V ainda consegue ser mais comprido atrás (embora seja ligeiramente mais estreito) e ter a maior mala do trio (589 litros de capacidade), embora à custa de um desenho menos consensual, com uma frente curta e um habitáculo de formato “monovolume” que lhe dá um aspeto algo bojudo e menos elegante. Mas esta sensação desaparece quando acedemos ao desafogado habitáculo. As soluções de versatilidade são, como é habitual na marca, muitas e variadas, os materiais à mão de semear são bons e estão bem montados, o tato dos comandos (em especial da caixa) é primoroso e o 1.6 i-DTEC biturbo quase não se faz ouvir no habitáculo. O conforto dos bancos em pele e tecido é outro dos atributos e a suspensão, mesmo com estas jantes de 18”, isola devidamente os ocupantes das agruras da via. Obviamente que nem tudo é perfeito e a ergonomia é o ponto mais criticável no interior do CR-V, tanto na disposição de alguns comandos como na utilização dos mesmos, em especial do computador de bordo.

Se há um item em que a BMW não descurou o posicionamento premium (ao contrário do anterior X1) foi na qualidade interior. Da qualidade dos materiais utilizados à cuidada montagem dos mesmos, o X1 é um digno herdeiro do nome que ostenta. A posição de condução não é a mais “desportiva”, estando muito próxima da dos monovolumes Active e Gran Tourer, mas a ergonomia é cuidada (mesmo sem ecrã tátil o sistema multimédia é fácil de operar), o tato dos comandos é muito bom e a sensação de solidez é a esperada num BMW. Nem o três cilindros está interessado em incomodar já que prima pela ausência de vibrações e pela cuidada insonorização. No meio do bem-estar generalizado, as jantes de 18” e a suspensão desportiva surgem com alguma surpresa, afetando a serenidade a bordo, sem os consequentes benefícios para a dinâmica. Não nos interprete mal, o X1 é muito bem-comportado e eficaz para um tração dianteira, mas o CX-5, por exemplo, prova que é possível curvar bem e com agilidade sem ter de comprometer o conforto, mesmo recorrendo a jantes de 19”. Se estiver comprador de um X1 sDrive 16d faça um favor a si mesmo e abdique das jantes de 18” (neste caso integradas no Line Sport que custa 3055€). Poderá perder em sex appeal, mas as suas costas (e as dos restantes passageiros) agradecem. Até porque o nível de prestações que o X1 oferece está longe de exigir pneus 225/50 R18”. Ainda que, verdade seja dita, o X1 16d pareça mais lento no papel do que na prática. Os 12,2 segundos nos 0 a 100 km/h não são motivo de regozijo e estão a anos-luz dos tempos rubricados pelo Mazda ou pelo Honda, mas, no dia a dia, o X1 16d move-se com a necessária destreza e o três cilindros até dá provas de alguma vivacidade, bem explorado pela caixa manual de seis velocidades.

Como referimos, o CR-V e o CX-5 estão numa liga à parte. Com 160 cv e 150 cv, respetivamente, Honda e Mazda são, obviamente, muito mais céleres, mas a grande surpresa vai mesmo para o 2.2D do CX-5 que “esmaga” por completo um adversário que até parecia melhor dotado. A explicação está no menor peso do Mazda (tem a melhor relação peso/potência dos três) e na superior disponibilidade de binário, com um valor mais alto obtido a um regime mais baixo. E essa supremacia é evidente ao volante, com o Mazda a ser sempre mais enérgico nas retomas de velocidade e a acelerar com uma convicção que o CR-V não consegue oferecer. O facto do Honda ter tração integral, aqui, não joga a seu favor, mas basta que o piso esteja molhado para que os papeis se invertam. O CX-5 é muito mais ágil e divertido de conduzir em piso seco, mas o CR-V 4x4 é imbatível quando a tração se deteriora. Obviamente que este tipo de transmissão também traz vantagens no fora de estrada, embora a elevada altura ao solo do CX-5 (215 mm) também possa ser decisiva no tipo de utilização “aventureira” a que um SUV deste tipo convida...

Se o Mazda é a “lebre” do grupo, o X1 é a... proposta mais poupada. Com o 16d sDrive não é difícil cumprir os trajetos diários com médias na casa dos 6 l/100 km. Já no Honda e no Mazda, os computadores de bordo marcam valores mais próximos dos 7 l/100 km. Para vincar a sua veia economicista, o X1 tem intervalos de revisão alargados e oferta da manutenção durante 5 anos, além de pagar menos IUC anualmente e de ter um valor de retoma, previsivelmente, mais elevado, mas quase deita tudo a perder com um preço bastante mais alto. Ou melhor, o preço base é o mais convidativo, mas sendo inevitável recorrer à extensa lista de equipamento opcional só para igualar o que no Honda e no Mazda é proposto de série, o BMW fica bastante inflacionado, mesmo que seja o mais barato dos X1.

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